Thursday, October 08, 2009

Consumo de queijo e ética no Vaishnavismo

O lacto-vegetarianismo é um dos principais pilares dentro da prática cotidiana do Vaishnava. Não colaborar com a matança de animais nos ajuda a desenvolver a misericórdia, o amor por todas as entidades vivas.

Na contemporaneidade essa prática também propicia uma maneira de lidar com a perversa indústria da carne que se insere na sociedade em vários níveis e setores: ocupa desde a banca dos congressos e senado, onde estão grandes pecuaristas; até a mídia e a educação, formadora da opinião de nossa população. Agrega-se ao cenário as questões ecológicas ligadas ao desmatamento de florestas, como a Amazônica, a destruição da camada de ozônio, as disputas de terras, a desestruturação e desapropriação dos povos indígenas, os maus tratos aos animais, entre outros. Fatos que estão muito bem documentados e expostos em vídeos, filmes e livros.

Uma das vertentes mais lucrativas e cruéis da indústria pecuária é a produção da carne de vitela: “nome utilizado para a criação de carne branca e macia de bezerros machos”[1]. Esses bezerros em fase lactente são mantidos desde o nascimento, em pequenas baias fechadas, sem acesso a luz do sol e impedidos de se movimentar. Deste modo, sua carne torna-se muito macia e rosada e atinge altos valores no mercado. O documentário “ A Carne é Fraca” mostra um trecho desta produção, que podemos ver no link: http://www.youtube.com/watch?v=AglOIgqTqfI.

A carne de vitela é um refugo da indústria leiteira, que por sua vez, também tem seu refugo na produção de coalho. Os criadores de vitela obtém mais lucro, vendendo o estomago, que não é consumido enquanto carne, para a produção de laticínios como queijos e iogurtes. Segundo informações do site sobre a produção de queijos feita pela Universidade Federal de Santa Catarina o coalho é feito da seguinte forma:

“Imediatamente após o sacrifício do bezerro, que foi alimentado somente com leite, se extrai o quarto estômago, este é lavado e cortado em tiras de onde se extrai o coalho com o auxílio de uma solução de cloreto de sódio (12-20%). Após a extração, filtra-se e purifica-se a solução por precipitação salina. Esta solução é conservada pela adição de sal e ácido bórico, entretanto se for destinada ao consumo humano usa-se a glicerina como conservante.”[2]

Vale dizer que este não é um site vegano ou de proteção aos animais, mas um site acadêmico científico, que busca informar compradores de coalho e não aterrorizar os consumidores de carne.

Para a produção de queijo, além do coalho dos bezerros, pode se usar o coalho obtido de bovinos adultos e de suínos:

Entretanto, algumas firmas produtoras de coalho, procurando baratear seu produto para torná-lo mais atrativos ao queijeiro, utilizam também estômagos de porcos (mais barato) na elaboração. O coalho resultante pode conter uma porcentagem considerável de PEPSINA SUÍNA, o que passa despercebida ao queijeiro, na beira do tanque. Só um exame apurado de laboratório pode detectar a presença de pepsina suína no coalho.[3]

Esses dois tipos de coalho possuem menos quantidade de fator coagulante.

Outras origens possíveis são o coalho microbiano, oriundo dos fungos “Kluyveromyces lactis, Aspergillus niger var awamori e uma variante da bactéria Escherichia coli. Há também outras substâncias coagulantes, diferentes da quimosina, obtidas do fungo Mucor miehei e da bactéria Bacillus subtilis ou Bacillus prodigiosum.”[4] Há também a possibilidade de se obter o coalho vegetal, mais raro no Brasil, através da resina de algumas árvores como a Ficus carica, por exemplo. Há ainda aqueles produtores que misturam os vários tipos de coalhos nos queijos.

Embora na Europa o quadro atual seja diferente, no Brasil o coalho de origem animal ainda é o mais utilizado. Em Minas é vendido até mesmo em supermercados comuns e é o mais adotado pelos produtores rurais de diversas regiões. Estima-se que cerca de 80% da produção nacional seja ainda de origem animal.[5]

A rede Habib’s, por exemplo, é dona de um extenso rebanho na região Amazônica. Todos os queijos produzidos pela rede são feitos com o coalho animal produzido de seus próprios rebanhos.[6]

Já a marca mineira Porto Alegre informou através do SAC em conversa telefônica que toda a sua linha de produção é feita a partir do coalho microbiológico. A marca Caçulinha traz em si a inscrição “própria para consumo de vegetarianos”. Foi inclusive visitada pelo devoto Jagajivan Prabhu, atual GBC do Brasil, em sua recente visita a Minas. Ele nos disse que o produtor é vegetariano e inclusive liberou seus produtos para consumo das deidades locais.

A marca Polengui, em contrapartida, possui alguns queijos sem o coalho ou coalho animal, como o caso do Frescatino, Camembert, Brie, Cream Chesse, Allouete (todos), Gorgonzola (Skandia, Campo Limpo, Polenghi Selection ou Crem A'zur).[7] Todos os outros queijos da marca, no entanto, possuem parcelas de coalho bovino.

Para sabermos realmente a origem do coalho com que as fábricas produzem o coalho, temos mesmo que fazer um trabalho de pesquisa e seleção, dentro de fontes confiáveis. É um trabalho demorado e, algumas vezes, temos que esperar dias pelas respostas. A fábrica da Cotochés, deve encaminhar alguma resposta, após solicitação telefônica, em alguns dias pois, segundo a atendente é uma informação muito técnica e eles não tinham a resposta.

Voltando agora ao nosso cotidiano espiritual, podemos perceber que existe muita preocupação com certos alimentos que consumimos. Acostumamo-nos a verificar se os produtos possuem cochonila[8], gelatina, albumina; entre outras substâncias que devemos evitar, pois são provenientes da morte de animais. Algumas vezes nos templos, vemos devotos comentando, ou tomando atitudes até agressivas e indignadas ao se depararem com algumas dessas substâncias disfarçadas nos iogurtes, molhos e etc. Estranho também é o descaso e o distanciamento com a qual o assunto dos queijos é tratado pela grande maioria dos devotos.

No contexto ideal, nenhum alimento industrializado deve ser oferecido às deidades. Atualmente, a ricota, sem coalho é também incluída em algumas oferendas. Em ocasiões como grandes festivais, onde devotos trazem oferendas de casa, é muito comum vermos alimentos fora dos padrões como a lentilha e soja, bem como todos os tipos de queijo nas preparações.

Algumas publicações nem tão recentes da própria Iskcon nos alerta para o caso, como no livreto “Consciência de Krishna no Lar”, de 1998: “Cuidado para não comprar queijo que contenha coalho, uma enzima extraída dos tecidos do estômago dos bezerros. A maioria dos queijos contém coalho, portanto cuidado, só compre queijos cujo rótulo indicar coalho vegetal.[9]

Ao oferecer nosso alimento a Krishna, recitando o belo mantra:

namo brahmanya-devãya go-brãhmana-hitaya ca

jagad-dhitãya krsnaya govindãya namo namah

Meu Senhor, és o benquerente das vacas e dos brãhmanas,

e és o benquerente de toda a sociedade humana e do mundo

Não é um tanto contraditório, adorarmos Govinda, aquele que dá prazer às vacas, nos arriscando a oferecer à Ele, pedaços de estômagos de pequenos bezerrinhos? Não é isso que fazemos ao comprarmos queijos sem a certeza de sua procedência?

O fato é que a maioria dos devotos consome queijos indiscriminadamente. É também verdade que o próprio consumo dos produtos lácteos, dentro da sociedade contemporânea é questionável. Quando consumimos leites extraídos através de métodos mecânicos, somos cúmplices do sofrimento extremo ao qual as vacas leiteiras são submetidas. Além disso, a indústria láctea só é economicamente viável, pois é atrelada à produção de carne.

Individualmente nos é dado por Krishna o livre-arbítrio, que nos possibilita optar pela dieta que nos atende melhor. O problema mesmo é quando vemos este tipo de alimento sendo oferecido em nossos centros de pregação. Se estamos propondo um modo alternativo de vida, uma alimentação sem violência, estamos mesmo dando o melhor exemplo? Hoje em dia essas informações são muito bem veiculadas e não pensem que visitantes não se questionam acerca do assunto ao apreciarem as preparações nos templos. Muitas vezes, aceitam o que lhes é oferecido, acreditando terem uma origem tão confiável quanto os ensinamentos que propagamos.

Argumentar que a maioria dos coalhos é química não quer dizer nada. Tanto os coalhos de origem animal, vegetal ou microbiana são químicos, o que lhes difere é a origem. Também dizer que em Kali Yuga tudo é “contaminado” então por isso tanto faz, é consideravelmente pouco inteligente. Temos sim muitos desafios na alimentação dentro de nossa sociedade, mas que podem ser visto como um grande estímulo à criatividade dentro das cozinhas.

O presente artigo não pretende, em momento algum, questionar as escolhas e condições pessoais de cada devoto, mesmo sabendo que o ideal é a pregação através do exemplo. Assim fazem nossos mestres acaryas. Sabemos que há mais força em nossas atitudes que nas palavras.

O queijo é um alimento muito saboroso e atrativo ao paladar. Ao nosso alcance temos a possibilidade de ligarmos para os serviços de atendimento ao consumidor e pesquisar os tipos de coalhos que eles usam. Há também muitas opções de queijos alternativos extraídos de castanhas, soja e outras sementes, por exemplo. A idéia não é retirar alimentos, mas procurarmos um “gosto superior”, como já dizia nosso mestre Prabhupada.

Sem tocar nos detalhes digestivos e biológicos deste alimento, devemos estar sempre conscientes das reações ecológicas e cármicas de nossas escolhas. Existem muitas opções para evitarmos essa indústria cruel e impiedosa. O que é mais difícil e ao mesmo tempo, mais necessário, é exercitarmos nosso controle dos sentidos, controlar a língua, desapegarmos do que não é bom. A austeridade também é um poderoso caminho para a purificação, bem como o exercício da misericórdia e do amor aos animais.

Certamente, muitas pessoas não têm o conhecimento sobre o coalho. A idéia é que através da informação e da nossa formação enquanto devotos poderemos construir uma instituição mais forte e capacitada para a propagação intensa da consciência de Krishna.



[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Carne_de_vitela - acessado em 21 de agosto as 22:00 hrs.

[3] http://luizmeira.com/coalho.txt, acessado em 21 de agosto de 2009 as 23:50 hrs.

[4] Informações obtidas no site: http://roctaviani.multiply.com/journal/item/31, acessado em 21 de agosto de 2009 as 23:45hrs.

[5] LERAYER, Alda, in http://harekrishna.org.br/modules/smartsection/makepdf.php?itemid=4, acessado em 22 de agosto de 2009 as 00:02hrs.

[6] Informação obtida através do SAC do Habib’s em 09 de julho de 2009.

[7] http://roctaviani.multiply.com/journal/item/31, acessado em 21 de agosto de 2009 as 23:45hrs.

[8] Corante de cor vermelha obtido a partir da cochonilla, pequeno inseto encontrado na região central da América. O Carmim de Cochonilha é utilizado para pintura de queijos como o Reino e o Edan. In: http://www.queijosnobrasil.com.br/portal/index.php?cod_dados=11&cod_tipo=5&cod_menu=19, acessado em 22 de agosto de 2009 as 00:14hrs.

[9] Consciência de Krishna no Lar - Um Guia Prático - Adaptado - 1998 The Bhaktivedanta Book Trust International, Inc. - Página 7.

Sunday, February 10, 2008



não, a vida não segue em linha reta
caminhamos torto, em círculos e mudamos a rota a cada instante
algumas vezes as pernas e pés querem ir a lugares diferentes
parar ou seguir, qual a diferença?
caminhar entre iguais

sempre estranho

alheio ao pensamento estão os desejos
os sentimentos
é preciso escolher a cada instante
prefiro as uvas
verdes

Wednesday, January 23, 2008




a chuva caía mas não quis ligar o pára-brisa, ver o vidro molhado ou seco, por fim, molhado.
a chuva já chovia muito antes das gotas precipitarem precipitadas do céu.
pausa
tempo
natal
a chuva dessa vez já não caía e no entanto a tristeza ainda estava
apertava o músculo mesmo depois de grandes risadas
é que o riso mora na superfície e a dor quase já na fronteira da matéria mais grosseira com a casa da alma plena, lá perto do botão que faz as coisas crescerem por dentro
nada mudara
nômade como seu espírito
sem destino parada ou caminho
paro
tomo apenas uma dose
a realidade só é digerida aos poucos
como a jibóia qe engoliu o boi
por favor, um tempo
já não há.
o ar parado no estômago
jantar
ceia
gula
assassinato
silêncio
risos e sangue
o tempo é quente e não há chuva

vontade de tartaruga



passava pela areia o vento que lambeu o velho barco a vela em seu último instante, roçou-me a face e tremi. desde aquela noite em que partiste e por um mês tremia por dentro e nunca mais e desde então caminhava seca - não direi dura porque sorria, mas simplesmente algo antes úmido e vivo ressecara por completo. acho que aquele cheiro de morno de morte de norte de fim por fim despertava um trapo esquecido perdido encardido numa das celas da memória memória de células que nunca esquecem
os raios de sol que levantam a mágica poeira dourada não existem as dez pra uma da manhã madrugada noite
noite sem norte sem fim com cheiro de morte

nuvens encobrem o sol e evidenciam a angústia ds dias sem tempo. o coração repousa no limbo inquieto sem pouso ou paz. os olhos vêem a impossibilidade

Friday, December 07, 2007


Tem momentos em que a vida dói
Horas em que o céu azul lá fora enche de nuvem que se carregam muito muito
E param no meio da garganta
Às vezes chove
Outras se mantêm quietas e se confortam no silêncio
Alguns pássaros voam e revelem cores deslumbrantes
Mas um distraído perdeu a cabeça e deixou seu coração a mostra
Às moscas
Pois ninguém mais queria ter
Ninguém mais queria ver

Tem momentos em que o eu cega
Horas em que os muros se tornam o melhor alvo
E só o sangue a escorrer das mãos
A formação dos hematomas
E o autopiedade desaparece diante de uma dor ainda mais grosseira
É quando a dor cega e o amargo cresce na língua
Que o sono vem brotar do cansaço
E a mente esquece
E dorme
Mas se acorda o coração brota da boca e a multidão de pensamentos
E a solidão
E só

Friday, November 16, 2007



é preciso aceitar o inverno
abrigar o eterno que há em cada minuto
engolir o nó da garganta
acalmar a batida do peito
deixar o ar entrar
a lágrima sair se quiser
rir
rir muito e fortalecer os músculos abdominais

mergulhar no fundo da piscina e se sustentar submersa
enquanto a paisagem passa obtusa e eterna

Monday, July 23, 2007


a angústia nasce no coração, mora na garganta e se expande continuamente em todas as direções.
a angústia às vezes cresce tanto que vira uma água quente que sai dos olhos e esfria dentro do peito.
às vezes ela tb não aguenta e vomita o almoço e evita o jantar.
a angústia de tarde descansa deitada no sofá.
ela é uma tia gorda que vem visitar de supresa e só vai embora quando quer.
ocupa os espaços da casa e não se importa em deitar na nossa cama e nos deixar insones durante toda sua visita.
a angústia pode virar um monstro horrível se acompanhada de álcool ou outros alteradores de consciência.

a angústia mora na garganta
a angústia mora na garganta
ela nasce no coração e mora na garganta
a angústia não sabe o caminho de volta
a angústia sente-se em casa
a angústia acha que é amiga e tem hora que a gente acha que gosta dela e dá pra ela um travesseiro mais macio, um café quetinho e um poema triste


Saturday, May 05, 2007


"teatro pra parar de interpretar"
caminhar pra não parar
parar pra respirar
cantar pra limpar
viver para sentir
doer para crescer
viver para crescer
chorar pro olho inchar
dançar pra esqueçer
lembrar de se alegrar
lavar para lembrar
cantar para lavar
dormir pra amanhecer
esperar pro tempo passar
sonhar e aprender a amar
correr sem sair do lugar
lutar pra divertir
sorrir para desanuviar
conhecer pra desconhecer
escrever pra não morrer
...




















ofereço a você flores que não existem
com a gentileza que ficou pra trás

ofereço-te aquela expressão triste
que meus olhos não guardam mais

oferecer servir cantar

naquele espaço entre o desejo e o inexitente
beijo
meu coração se desfaz

ofereço o gosto de sangue na boca
e a iminência da loucura gorda

oferecer servir cantar

ofereço-te as lágrimas já secas
sem forma ou cheiro mas ainda presentes em minha pele

ofereço a ti a presença inefável da dor
incolor e doce

guardarei pra mim o que resta
o que ainda posso
o que sufoco
o que sem foco
ainda corta